domingo, março 16, 2014

Notas de bolso, caderno azul: o fim

Pensei bem.
Hoje não. Talvez nunca.
Mas nunca também não diria.
O nunca é demasiado extenso.
O nunca é como um poço sem fundo, onde caímos com esperança de bater no fundo.
Nunca batemos.
Temos demasiado pouco tempo para palavras como "nunca".
Tudo é demasiado complexo para palavras como "nunca".
O meu "nunca" é um talvez.
O meu "nunca" tem data.
Um dia.
O meu "nunca" não é um poço sem fundo.
O meu "nunca" vai ter uma história, que poderei contar aos meus sem nunca dizer "nunca",
Nem tal faria sentido, um "nunca" que aconteceu.

E o que será que aconteceu?
O que será que aconteceu no meu "nunca"?

Acho que não temos tempo para isto.
Fique anotado que afirmei, veemente, que acho que não temos tempo suficiente para isto.
E vejamos como desperdiço esse tempo em não fazer nada de concreto,
Concordando e corroborando ao mesmo tempo a anterior oração, a tal do não temos tempo,
Sendo que cada vez teremos menos.
E menos.
E menos.
E menos.

Talvez, no fim, o sol.

segunda-feira, março 11, 2013

Ninguém gosta de fantasmas


Depois de o escrever será tarde demais, estará escrito
E poderá ser dito que, um dia, eu o pensei.

Terei pensado, de facto
E cometido o erro de o escrever, de lhe dar corpo
Remeter tudo para tinta, papel
E perpetuar-lhe o destino. Tu.

Depois de o escrever...

Não que me apontem o dedo e digam:
"Eis o homem que escreveu!"
Que gritem "este homem mentiu!"
Ou que o mundo se solte das fundações.
Não.

Serão apenas palavras sem sentido,
Tê-lo-ão perdido algures depois, talvez não todo mas a maior parte
E continuarão a existir, apenas como fantasmas.

Mas ninguém gosta de fantasmas. 

sábado, outubro 16, 2010

pág. 27, caderno azul

Por vezes parece alterável, como nos filmes que conhecemos e que ao rever ficamos à espera que seja desta que ela não abra a porta ou que ele não morra na explosão.
Por vezes parece alterável.
E por vezes pareces tu, mas quase nunca és tu.

Há qualquer coisa de gratificante em não esquecer.
Não me perguntes o quê, porque não sei.
Por vezes parece alterável.